Seu Joaquim e o Terno Branco no Dia da Eleição
Seu Joaquim acordou cedo no domingo de eleição. Aos 78 anos, já tinha aprendido que o corpo podia pedir mais alguns minutos na cama, mas havia dias em que a vida chamava antes do despertador. Enquanto tomava café, abriu o velho guarda-roupa. Procurou devagar, afastando camisas, calças e lembranças, até encontrar o terno branco.
Passou a mão sobre o tecido e sorriu. — Olha você aqui. O terno tinha sido usado pela última vez muitos anos antes, numa festa de família. Naquele tempo, os filhos ainda eram jovens, sua esposa tinha os cabelos escuros e ninguém imaginava como os anos passariam depressa.
— Vai mesmo vestir isso? — perguntou Dona Lúcia.
— Vou. Ele ainda cabe em mim.
— E se não couber?
— Aí a culpa é do terno, que encolheu com a idade!
Dona Lúcia riu.
Na rua, Seu Joaquim caminhou devagar, apoiando-se na bengala, mas sem abrir mão de seu jeito independente. No caminho, encontrou antigos vizinhos. Alguns comentaram sobre as eleições de outros tempos, quando ele e os amigos discutiam política sentados na calçada, depois do trabalho.
— Naquela época a gente tinha menos informação — disse Joaquim —, mas conversava mais.
Na fila da votação, encontrou conhecidos que não via havia meses. Uma conversa virou outra, e logo estavam lembrando festas, casamentos, filhos, perdas e até as antigas viagens de ônibus para outras cidades.
Quando finalmente entrou para votar, Seu Joaquim demorou um pouco. Não porque tivesse esquecido o que fazer, mas porque gostava de fazer as coisas no seu tempo.
Ao sair, um rapaz perguntou: — Seu Joaquim, o senhor veio votar ou concorrer à eleição?
Ele ajeitou o paletó. — Vim votar. Mas, com esse terno, já estou quase recebendo convite para comício!
Todos riram.
Na volta para casa, Dona Lúcia perguntou: — Cansado?
Respondeu — Um pouco.
— Então por que está sorrindo?
Seu Joaquim olhou para ela e respondeu: — Porque envelhecer é isso também. A gente carrega algumas dores, perde algumas pessoas, muda de ritmo... mas continua tendo história para contar.
Guardou o terno novamente. — Esse não vai mais ficar escondido — disse.
— Vai usar quando?
Seu Joaquim sorriu: — Na próxima ocasião importante. Afinal, depois dos 70, a gente já sabe que todo dia merece ser comemorado.
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