Contos & Causos

Seu Joaquim e o Terno Branco no Dia da Eleição

02 de outubro de 2026
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Seu Joaquim e o Terno Branco no Dia da Eleição

Seu Joaquim e o Terno Branco no Dia da Eleição

Seu Joaquim acordou cedo no domingo de eleição. Aos 78 anos, já tinha aprendido que o corpo podia pedir mais alguns minutos na cama, mas havia dias em que a vida chamava antes do despertador. Enquanto tomava café, abriu o velho guarda-roupa. Procurou devagar, afastando camisas, calças e lembranças, até encontrar o terno branco.

Passou a mão sobre o tecido e sorriu. — Olha você aqui. O terno tinha sido usado pela última vez muitos anos antes, numa festa de família. Naquele tempo, os filhos ainda eram jovens, sua esposa tinha os cabelos escuros e ninguém imaginava como os anos passariam depressa.

— Vai mesmo vestir isso? — perguntou Dona Lúcia.

— Vou. Ele ainda cabe em mim.

— E se não couber?

— Aí a culpa é do terno, que encolheu com a idade!

Dona Lúcia riu.

Na rua, Seu Joaquim caminhou devagar, apoiando-se na bengala, mas sem abrir mão de seu jeito independente. No caminho, encontrou antigos vizinhos. Alguns comentaram sobre as eleições de outros tempos, quando ele e os amigos discutiam política sentados na calçada, depois do trabalho.

— Naquela época a gente tinha menos informação — disse Joaquim —, mas conversava mais.

Na fila da votação, encontrou conhecidos que não via havia meses. Uma conversa virou outra, e logo estavam lembrando festas, casamentos, filhos, perdas e até as antigas viagens de ônibus para outras cidades.

Quando finalmente entrou para votar, Seu Joaquim demorou um pouco. Não porque tivesse esquecido o que fazer, mas porque gostava de fazer as coisas no seu tempo.

Ao sair, um rapaz perguntou: — Seu Joaquim, o senhor veio votar ou concorrer à eleição?

Ele ajeitou o paletó. — Vim votar. Mas, com esse terno, já estou quase recebendo convite para comício!

Todos riram.

Na volta para casa, Dona Lúcia perguntou: — Cansado?

Respondeu — Um pouco.

— Então por que está sorrindo?

Seu Joaquim olhou para ela e respondeu: — Porque envelhecer é isso também. A gente carrega algumas dores, perde algumas pessoas, muda de ritmo... mas continua tendo história para contar.

Guardou o terno novamente. — Esse não vai mais ficar escondido — disse.

— Vai usar quando?

Seu Joaquim sorriu: — Na próxima ocasião importante. Afinal, depois dos 70, a gente já sabe que todo dia merece ser comemorado.

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